23/07/2010

EU PREFIRO AS CURVAS!

EU PREFIRO AS CURVAS! MARISTELA & O CINEMA DA BOCA
Gilmar P. de Lima

“O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida”.

Assim diz Oscar Niemeyer sobre a sua predileção pelas curvas, ao invés dos ângulos retos. Como no clássico Condomínio Pan Americano. O Edifício Copan. Projetado pelo arquiteto. Um “S” encravado no Centro de São Paulo.

Ao lado do Edifício Itália e sua curva fachada, na esquina encurvada da São Luiz com a Ipiranga, porta de entrada para a Cinelândia paulistana.

A começar pelo cine Ipiranga, com suas rampas curvas para acesso à sala de projeção, passando pelo cine República da tela gigantesca – e ligeiramente curva – para abrigar os Cinemacospes & Panavisions.

Mas, se falamos de curvas, o cine Marabá era o campeão.

Em sua tela o cinema da Boca do Lixo exibia seus roteiros, em grande parte ancorados na beleza e na sensualidade feminina, representadas nas hour-concours e curvilíneas Aldine & Helena & Matilde, para as quais, aliás, a história do cinema brasileiro ainda dará o devido valor.

Além do trio, uma das expoentes das produções da Boca é a injustamente pouco lembrada Maristela Moreno.

Com jeito de menina sapeca e corpo com formas deliciosamente arredondadas e curvas generosas, Maristela, em cinco anos – de 1980 a 1985 – participou de mais de 20 filmes dirigidos por nomes como: Jean Garret (em O Fotógrafo, de 1980), Carlos Reichenbach (em Império do Desejo, de 1981), Guilherme de Almeida Prado (em Flor do Desejo, de 1983), e José Mojica Marins (em 5ª Dimensão do Sexo, de 1984).

Destacam-se, também, em sua filmografia a estréia em Tortura Cruel (1980), do diretor Tony Vieira; a participação no episódio “As Gazelas”, dirigido por Luiz Castellini, do filme “Pornô” (1981), no qual tenta conquistar sua colega de escola vivida por Patrícia Scalvi; em Noite das Taras II (1982), no episódio “Solo de Violino”, protagonizando com o ator Ênio Gonçalves uma das mais longas cenas de sexo do Cinema da Boca; no clássico Aluga-se Moças, de 1982 e sua continuação de 1983; e no criativo Mulher de Proveta, A Gargalhada Erótica, de 1984.

Em 1985, em seu último trabalho no cinema, estrela o episódio dirigido por Carlos Nascimbeni, “Fim de Semana Impossível”, no filme Made In Brazil, uma das jóias da fase final da pornochanchada. Diga-se, imperdível.

Sua curta e profícua carreira dá a idéia do potencial cênico de Maristela. Pra variar, com pouco material disponível para conhecer a sua obra. De resto, uma insuficiência particularmente relevante quando se buscam fontes para pesquisas sobre a pornochanchada e o Cinema da Boca.

Assista aos filmes de Maristela Moreno nas fitas de VHS encontradas nas boas – e raras – locadoras de vídeo que ainda as mantém no acervo, ou nas madrugadas do Canal Brasil quando constantemente são reprisados “Pornô” e “Noite das Taras II”.

Boa sorte na garimpagem e boa diversão. Acreditem: vale a pena conferir.