24/07/2010

JEAN GARRETT E AMADAS E VIOLENTADAS

JEAN GARRETT E AMADAS E VIOLENTADAS

Por Matheus Trunk

O cinema da Boca teve seu auge durante os anos de 70 e na primeira metade dos 80. Durante esse período, as esquinas da região viviam lotadas de produtores, atores, atrizes e diretores. Foi nesse contexto que surgiram alguns dos mais interessantes realizadores do cinema paulista.
O português Jean Garrett (1947-1996) se diferenciava de seus contemporâneos pela temática e pelo capricho na maioria de seus filmes. Fotógrafo de fotonovelas da revista Melodias, José Antônio Nunes Gomes e Silva iniciou-se no cinema como ator e cenógrafo de José Mojica Marins. Após fazer still e assistência de direção em algumas fitas, tornou-se o diretor de confiança do ator e produtor David Cardoso.
Pela produtora Dacar, o realizador de origem européia dirigiu três longas-metragens: “A Ilha do Desejo” (1974), “Amadas e Violentadas” (1975) e “Possuídas pelo Pecado” (1976).
O segundo filme merece certa atenção, por se tratar de uma obra-prima. A trama gira em torno de Leandro (David Cardoso, irreconhecível usando barba), um jovem escritor de livros policiais, famoso pelo realismo de suas obras. Na verdade, ele é um serial killer e seus livros adquirem essa realidade por conta de seus crimes.
Com fotografia de Reynaldo Paes de Barros e montagem de Walter Wanny, trata-se de um filme bastante diferenciado da maioria das produções da Boca. Explorando o lado erótico softcore, o filme conseguiu a bilheteria satisfatória de 700 000 espectadores.
A crítica foi extremamente preconceituosa, chamando David nessa fita de “o primo pobre do estrangulador de Boston”. Faltou sensibilidade dos jornalistas da época conseguir enxergar um filme feito sem muitos recursos, mas com muito talento e garra.

Matheus Trunk é editor do blog "Violão, Sardinha e Pão".